Presença de Aline


Ela morava junto com sua família numa casinha ainda inacabada, construída há pouco tempo. Aline era uma menina meiga, sorridente, carinhosa e despertava paixões nos corações dos meninos por ser também muito bonita e inteligente. Ela tinha três amigas de infância, com as quais compartilhava seus segredos e passou maior parte da sua adolescência. Durante o período do colegial foi inevitável que suas amigas se afastassem um pouco, pois passaram a estudar em turnos opostos. O contato entre elas foi ficando mais raro a cada ano e passaram a se verem apenas em ocasiões especiais, aniversários, reuniões e datas comemorativas. Ao se reencontrarem era sempre “aquela” festa, e os papos fluíam como antigamente.

Numa tarde do mês de julho no ano de 2008, Aline e suas amigas reuniram-se na casa de uma delas para ver um filme. Foram horas de muitos sorrisos e muitas conversas. Aquela tarde havia sido “regada” de promessas para um novo encontro. E sem marcar data nem local, mais uma vez os dias se passaram e o contato entre as amigas continuou com pouca freqüência.

Um mês após o encontro, uma das amigas ficou sabendo que Aline passava por alguns problemas de saúde. Ligou para saber mais detalhes, porém, não dando tanta importância ao caso, acabou não indo visitá-la no hospital. Aparentemente, depois de ter saído de observação, Aline parecia estar muito bem. Ela só reclamava de algumas dores de cabeça que começou a sentir freqüentemente.

Passados mais alguns dias, tais dores persistiam e Aline se sentia muito mal. Retornou ao hospital local e a dor era tão intensa que ao entrar no quarto, ela já estava desacordada. Os médicos observaram que ela estava muito pálida e precisava de transfusão de sangue, foi então que fizeram os exames necessários para saber qual o seu tipo sanguíneo e assim conseguir as doações. Ao realizarem os exames, foi detectado um nível muito baixo da sua hemoglobina, e uma bolsa de sangue não foi suficiente para tal ocasião.

A mãe de Aline chorava muito, ao ver sua filha passar por uma fase tão ruim, e a paciente tentava ser forte para mostrar para a família que não era tão doloroso quanto parecia.

Uma semana depois, recebeu alta, estava feliz em poder voltar para a sua casa e estar bem novamente. Suas amigas foram visitá-la e tudo parecia ter voltado ao normal.

Até que um dia, Aline sentiu uma dor muito forte, era como se alguém enfiasse pontas de facas do lado esquerdo da sua cabeça. Ela desmaiou no colo de sua mãe, foi uma cena desesperadora, sua mãe chorava muito e chamava por socorro. A família dela conseguiu imediatamente um carro e mais uma vez levaram-na para o hospital. Naquele dia Aline passou 7 horas com o braço estendido tomando bolsas de sangue, era o início de um sofrimento muito intenso. Os médicos a encaminharam para uma série de exames, as suspeitas eram várias, mas ninguém afirmava ao certo o que ela realmente tinha.

Os dias foram passando e ela tinha uma falsa melhora. Alguns resultados de exames detectaram uma inflamação no intestino, mas nada explicava àquela perda de sangue constante.

Suas amigas permaneceram mantendo contato, mais por telefone, eram poucas as vezes que podiam ir visitá-la. Só com um tempo é que foram percebendo a gravidade do problema pelo qual Aline passava. Sua família resolveu levá-la para um hospital mais equipado, agora fora da cidade.

Nenhum médico afirmava um diagnóstico preciso. Isso complicava ainda mais, passaram muitos tipos de exames diferentes, sendo que alguns deles só poderiam ser realizados fora do estado. Além das condições financeiras da família que não podiam custear os exames, Aline ainda não estava em condições de realizar viagens muito longas. Era muito delicada a situação.

Alguns dias se passaram e com os novos tratamentos ela já não sentia mais dores. Todos ficaram muito felizes por ela ter melhorado e sentiam-se aliviados em meio a tudo aquilo.

Mas algo ainda estava estranho, suas mãos estavam muito pálidas e com algumas manchas rochas espalhadas, sentia calafrios, fadiga, a palidez era constante, e com o passar dos dias sua freqüência cardíaca estava acelerando, sua pele estava amarelada e ela se sentia muito cansada. Havia se livrado apenas das dores de cabeça.

Os resultados dos exames não acusavam nada do que suspeitavam, e aí estava a maior preocupação: o que Aline teria?

Passaram-se seis meses depois daquela tarde de julho, Aline não estava suportando seu sofrimento e pedia a Deus que a levasse embora para que deixasse sua família mais tranqüila.

Em 24 de dezembro Aline foi a uma consulta com um naturalista, lá não precisou falar muita coisa, estava meio dopada e o doutor começou a falar sobre os sintomas que ela passava. Além dos sintomas citados anteriormente ela tinha tontura, falta de ar, um pouco de cegueira também, enfim, o médico sabia de tudo aquilo, parecia mais um vidente. Ele analisou a coluna dela, notou um grande desvio e constatou problemas no fígado, rim e baço. O médico foi logo explicando que o problema não era tão simples, mas tinha como ser resolvido. Daí um alívio para Aline e sua família, já que conseguiram saber o problema ficaria mais fácil achar uma solução.

Na verdade não era bem isso, ela realmente tinha problemas no baço, estava dilatado, mas não eram aqueles problemas constatados pelo doutor que a deixara tão debilitada.

Aline ficou desanimada e chorava muito, ficou depressiva, o que piorava ainda mais a procura pela melhora. Ela vomitava, permanecia pálida e teve também uma parada respiratória. Ela sentia muito medo, medo do que poderia vir daí para a frente e medo de não resistir. Ao mesmo tempo que pensava que seria melhor não resistir, pensava também como seria a vida da família sem a sua presença.

Em alguns momentos ela passou a fingir estar bem na frente da família com a intenção de aliviar o sofrimento deles. Mas não era fácil fazer teatro quando ela realmente se sentia muito mal. Foi então que começou a pedir mais forças a Deus para enfrentar aquele sofrimento. Por outro lado, ela sentia suas forças se esgotando, seus olhos, de cansados, querendo fechar. E certa vez, disse à sua mãe que estava difícil para ela agüentar, mensurou a possibilidade de fechar os olhos e não mais abri-los e perguntou se ela brigaria se isso acontecesse.

Era muito inocente seu comentário, doloroso para sua mãe ver tanta dor e não poder ajudar e nem estar no lugar de sua filha. A mãe dela chorou muito, abraçou-a e conseguiu dizer com palavras trêmulas que faria o que fosse preciso para vê-la bem. Aline foi submetida a uma série de tratamentos, ela sentia estar morrendo aos poucos. Tomou inúmeras bolsas de sangue, teve febre alta.

Foi então que, numa manhã de quinta-feira ela parecia ter piorado. A hemoglobina já estava num nível tão baixo que os médicos já haviam dito para a família dela que não tinha mais jeito.

Bom, acho que já é hora de revelar que uma das três amigas de Aline, era eu. Chocada com toda aquela situação, pedia muito a Deus que a ajudasse. Ligava várias vezes num dia para saber notícias, sempre com voz “animadora”, mas só para não transparecer mais fraqueza, eu tinha sempre receio quando ligava. Tinha medo de ligar e ouvir o pior. Eu chorava… Tinha fé em Deus, mas tinha medo.

Passei a ligar para amigos pedindo doações de sangue para Aline, pois já não eram disponibilizadas tantas bolsas. Na verdade estava em falta de do seu tipo sanguíneo, o que agravava ainda mais a situação. Divulguei seu caso em sites de relacionamentos muito acessíveis por vários amigos e conhecidos, eu recebia ligações também de pessoas que residiam na cidade onde ela estava internada para saber os procedimentos para realizar a doação.  Seu caso foi também divulgado nas rádios, pedindo que as pessoas doassem sangue para ela. Muita gente, sensibilizada com os apelos, mesmo sem conhecer Aline, fizeram doações.

Às vezes as pessoas esquecem a importância de uma doação de sangue, mas seja quem for que estiver necessitando, encare como seus irmãos, coloque-se no lugar daquelas pessoas e não esqueça que nenhum de nós está escape de precisar.

O nível da hemoglobina estava tão baixo que se passasse mais 24 horas sem transfusão ela não resistiria. Passadas as 24 horas, os médicos já não sabiam mais qual atitude tomar e Aline ainda respirava. Nenhuma bolsa era compatível e se injetassem um tipo diferente do seu, era muito provável acontecer um choque anafilático, e ela morreria. Os familiares desesperados não tinham mais o que fazer a não ser pedir a Deus que os abençoasse com um milagre.

Consegui folga do trabalho num sábado e fui visitá-la junto com nossas duas amigas, lá chegando ficamos ainda mais chocadas e fizemos a nossa doação. Os médicos não tinham mais opção, se não injetassem sangue imediatamente Aline morreria. Apesar de perceberem que já era tarde, resolveram ainda assim fazer uma transfusão com um tipo não compatível mesmo. Não sei de qual das três era aquele sangue, mas terminada a transfusão, Aline recuperava aos poucos a sua cor normal. No dia seguinte ela já falava e parecia estar se sentindo bem. Contou-nos de um sonho que tivera na noite anterior, no qual Deus mandava para ela duas pessoas que ela não conseguia ver o rosto e no meio delas, um anjo, para salvá-la. E nos perguntou, com tom irônico, se pensávamos mesmo que iríamos nos ver livres dela tão cedo.

O seu corpo possuía um número inadequado de glóbulos vermelhos circulantes, decorrente da destruição prematura dos mesmos. O nome dessa doença é Anemia hemolítica. A incidência geral das anemias hemolíticas é de quatro em 100 mil pessoas.

Aquilo era inacreditável, os médicos impressionam-se com o caso de Aline, pois essa doença a princípio não tem cura, são tratados os sintomas e hoje eles alegam que ela está realmente curada.

Se você tem amigos, procure-os. Não espere um momento de dor para voltar a estar por perto.  Tomando um pouco as palavras de Shakespeare “As pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos”. Bom, graças a Deus esse não foi o meu caso, depois de dias Aline retornou para sua casa e combinamos um cineminha. Ela parecia que nunca esteve doente, estava corada, com seu peso normal, sorridente e muito feliz.

Eu concluo com a seguinte pergunta: Você acredita em milagres?

 

Texto dedicado para minha querida amiga Aline, que me fez repensar muitas coisas sobre a vida e mudar também algumas atitudes. E em agradecimento a Deus por proporcionar mais uma oportunidade de estarmos juntas novamente.

(Laiana Vieira)

9 opiniões sobre “Presença de Aline”

  1. Me emocionei muito ao ler esta mensagem, acredito sim em milagres e tambem no poder da amizade verdadeira, parabéns a vcs por esta amizade imensa, que Deus sempre conserve está amizade de todas, e a Aline pela batalha a qual ela enfrentou e em momento algum deixou de acreditar no poder de DEUS.
    Meu nome é Daiane Aparecida Cardoso, tenho 28 anos sou formada em enfermagem e sei como é dificil esta enfermidade.

    Curtir

    1. Hoje posso compreender todo sofrimento que passei…Foi sim para Gloria de Deus!Fico muito feliz em poder compartilhar essa vitoria com todos,é muito gratificante saber que o milagre que Deus operou em minha vida tem alcançado corações.Muito obrigada pelo comentário Daiana Aparecida,que Deus em Cristo Jesus continue te abençoando.

      Curtir

  2. Um milagre na vida de minha irmã e na vida de todos nós que a amamos muito, eu não tenho palavras para agradecer a Deus pelo milagre que ele realizou , cada momento de angustia e sofrimento foram transformados em alegria. Creio que muitas vidas já forma salvas através desse testemunho e que muitas ainda se renderão aos pés do Senhor.Obrigada Deus por todo cuidado e amor que tens pelo nosso tesouro ( Aline).

    Curtir

  3. Sou testemunha do grande milagre que Deus operou na vida de Aline, no momento não entendia como tanta gente doava sangue e todo aquele sangue não servia para ela, mas depois o Espirito Santo me fez compreender que através de uma vida Deus pode salvar muitas outras, Jesus doou sua vida, derramou seu sangue para nos salvar, E o sangue que era doado para Aline salvou muitas vidas.

    Curtir

Escreva seu Comentário ou pergunta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s