Porque Deus se fez homem?


Por que razão Deus, sendo onipotente, tomou a humildade e a enfermidade da natureza humana e foi crucificado? 

O texto abaixo é um condensado do trabalho CUR DEUS HOMO, de autoria de Santo Anselmo, escrito em 1098. Anselmo nasceu na Itália no ano de 1033, e se tornou Monge beneditino italiano. Canonizado em 1163, foi declarado doutor da igreja em 1720.

 Por Marco Antônio de Souza

 

“Tenho sido rogado freqüentemente por muitos, oralmente e por carta, que expusesse por escrito porque necessidade e por que razão Deus, sendo onipotente, tomou a humildade e a enfermidade da natureza humana para poder salvá-los. Tentarei satisfazer aos seus pedidos, não para que pela razão se aproximem da fé, mas para que se deleitem das coisas que crêem pela inteligência e pela contemplação, e possam, o quanto possam, estarem preparados para darem uma satisfação àqueles que lhes perguntarem sobre a nossa esperança. Vejamos primeiramente o que é pecar, e o que é satisfazer pelo pecado. Se o anjo ou o homem sempre dessem a Deus o que lhe é devido, nunca pecariam, pois nada mais é pecar do que não dar a Deus o que lhe é devido, isto é, toda a vontade da criatura racional sujeita à vontade de Deus. Quem não dá a Deus isto que lhe é devido, tira de Deus o que lhe é devido e o desonra, e isto é pecar. Enquanto não devolver o que é devido, permanece em culpa. Não é suficiente, porém, devolver o que lhe foi tirado, pois pela injúria feita sempre deve-se devolver mais do que se tirou. É assim que não é suficiente para quem lesa a saúde de outro que lhe devolva a saúde, pois deve também, pela dor impingida, recompensar-lhe com algo mais. Do mesmo modo não é suficiente para quem viola a honra de alguém que lhe devolva a honra, pois deve também, de acordo com o dano que lhe causou, restituir-lhe algo a mais que seja de seu agrado. 

Mas com que poderás resgatar a Deus pelo teu pecado? Arrependimento, um coração contrito e humilhado, abstinências, trabalhos corporais, misericórdia no dar e no perdoar e obediência? Em tudo isto, porém, o que dás a Deus? Ao dares a Deus algo que já lhe devias, mesmo que não tivesses pecado, não podes computar isto como o resgate que lhe deves pelo teu pecado. O que, pois, lhe darás pelo teu pecado? Se eu mesmo, e tudo o que eu posso, mesmo quando não peco, e Ele o devo para que não peque, nada mais terei com que possa resgatar pelo pecado. Entretanto, ainda que estas coisas não as devesse já a Deus, mesmo estas não seriam suficientes para resgatar do pecado, mesmo de um pecado tão pequeno como um olhar contra a vontade de Deus. Considera quão grave é o pecado. Se estás na presença de Deus e alguém te dissesse: “Olha”, e Deus, ao contrário: “De modo algum quero que olhes”, pergunta em teu coração qual é o motivo que justificaria ir contra a vontade de Deus. Se necessário fosse olhar para que todo o mundo e tudo o que não é Deus não perecesse e não voltasse ao nada, mesmo se houvessem muitos mundos cheios de criaturas e que estas se multiplicassem ao infinito, nem por isto deverias olhar, o que não significa outra coisa senão que tudo isto é de menos valor do que a gravidade do pecado. Ninguém, pois, poderá satisfazer pelo pecado, por menor que seja, a não ser quem puder resgatar pelo pecado do homem com algo que seja maior do que tudo o que não é Deus. 

Ora, somente poderá dar algo de seu a Deus que seja maior do que tudo o que há debaixo de Deus aquele que for maior do que tudo aquilo que não é Deus. Ninguém, porém está acima de tudo o que não é Deus senão Deus. Portanto, não poderá satisfazer pelo pecado do homem ninguém, senão só Deus. Mas também não o poderá fazer, se não for homem, caso contrário não será o homem que dará a satisfação. É necessário, portanto, que esta satisfação venha do Deus homem. A razão, portanto, nos ensina que quem satisfará pelo pecado do homem deve possuir algo maior do que tudo o que há debaixo de Deus, e que o dê espontaneamente, e não por uma obrigação, a Deus. Deverá, pois, se pôr a si mesmo para a honra de Deus, ou algo de si mesmo que de algum modo já não o devesse a Deus. Se, porém, o Filho de Deus der a sua vida a Deus, ou se se oferecer à morte para a honra de Deus, isto Deus não o exigiria dele, porque a morte entrou no mundo pelo pecado, e o Deus homem não tendo pecado, não seria obrigado a morrer. É fácil também ver que a morte deste homem é maior do que tudo aquilo que há ou pode haver no mundo. 

Considera que se alguém te dissesse: “Se não matares este homem, perecerá todo este mundo e tudo o que não é Deus”, deverias matá-lo para conservar todas as demais criaturas? Não o farias, certamente, mesmo que te mostrassem um número infinito de criaturas. E se te dissessem: “Ou o matas, ou todos os pecados do mundo cairão sobre a tua alma”? Deverias responder que mais preferirias que caíssem sobre a tua alma todos os pecados não só deste mundo, como de todos os que existiram e de todos os que existirão, do que matar a este homem. Mas por que esta é a resposta que deverias dar, senão porque a vida deste homem, ou mesmo uma sua pequena lesão, vale mais do que todos os pecados do mundo? De onde que se segue que esta vida é mais amável do que são odiáveis todos os pecados. Não vês que um bem tão amável pode ser suficiente para pagar o que é devido pelos pecados de todo o mundo? 

Na verdade o pode mais ao infinito. Vê-se, portanto, como esta vida pode vencer todos os pecados, se por eles for entregue. Se, porém, o Filho de Deus oferecer espontaneamente a Deus um dom tão grande assim, não é justo que fique sem retribuição. Mas o que se lhe dará que como Deus já não o tivesse, ou o que se lhe perdoará, se nada devia? Antes que o Filho oferecesse sua vida ao Pai, tudo o que era do Pai também era seu, e nunca deveu nada que pudesse ter que lhe ser perdoado. Vê-se, assim, por um lado, a necessidade de ser recompensado, e por outro, a impossibilidade de se o fazer. Mas se o Filho quisesse o que a si é devido, dá-lo a outrem, poderia o Pai proibi-lo? Mas a quem mais convenientemente atribuiria o fruto e a retribuição de sua morte senão àqueles por quem se fez homem para os salvar e aos quais morrendo deu o exemplo de morrer pela justiça? Inutilmente seriam seus imitadores, se não pudessem ser partícipes de seus méritos. Ou a quem mais justamente faria herdeiros da dívida, da qual ele não necessita, e da exuberância de sua plenitude, do que aos seus pais e irmãos? Nada mais racional, nada mais doce, nada mais desejável o mundo jamais poderá ouvir. 

É evidente que Deus jamais rejeitará a nenhum homem que dele se aproxime sob a tutela de seu nome. Verdadeiramente quem sobre este fundamento edifica, está alicerçado sobre uma rocha firme. Quem poderá conceber uma misericórdia maior do que o pecador, condenado ao eterno tormento, sem ter como se redimir, ao qual Deus Pai se dirige e lhe diz: “Aceita o meu Filho Unigênito, e ele te redimirá?” E o próprio Filho: “Toma-me contigo, e redime-te?” 

Pois é de fato isto o que dizem, quando nos chamam à fé cristã e a ela nos trazem” 

Santo Anselmo “Cur Deus Homo”

5 opiniões sobre “Porque Deus se fez homem?”

  1. eu quero pedir oraçao por mim e por minha familia para que deus fassa um grande milagre em minha vida senhor ainda esta semana para que deus tem misericordia da sua servas que nao aguemta mais tanto contenda.
    fique na paz…………….

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  2. Bom, eu não acredito mais nos homens, no entanto acho que isso não me afasta de Deus; não sou ateu, disto sei. Acredito que Deus se fez homem para tentar compreender melhor a sua amada criatura, e viu por si só, a maldade que ele criou, um ser cheio de glória que “abandona” seu domicilio celeste para nascer entre suas crias e depois ser “comida” por elas, não sobram duvidas que ele fez isso por amor. Até hoje vemos pessoas lembrarem dEle com a palavra sangue, quem se lava com sangue e se sente beneficiado com isso a não ser o próprio homem, este animal insano que procura amor nas dores alheias? Quando disseram que Deus morreu, foi isso que quiseram dizer: o homem matou o Deus que se fez homem e ainda perdoou e agora o vendem como se fosse um objecto. É “o verbo se fez carne e habitou entre nós”… E nós o matamos… Se procurares amor em Deus acharás, agora enquanto “bebermos” seu sangue ele continuará morto.

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  3. EU SOU TEMENTE A DEUS, NÃO GOSTO MUITO DE IR A IGREJAS, FAÇO MINHAS ORAÇOES QUANDO O PRÓPRIO DEUS ME CHAMA PARA NOS COMUNICARMOS.

    ESTOU PROCURANDO UM PESSOA PARA NAMORAR, PORÉM, CÁ NO MUNDO, COMO DIZEM OS EVANGÉLICOS, É CRUÉL, SÓ TEMOS ANZÓIS. EU É QUE NÃO QUERO SER PESCADO.

    QUERO UMA PESSOA HONESTA, DEDICADA, QUE APRENDA JUNTO A MIM, A ARTE DE PROGRAMAR COMPUTADORES PARA CRESCERMOS JUNTOS. ASSIM COMO OS FIÉIS GOSTAM DE RELACIONAREM-SE COM FIÉIS, EU PRETENDO UMA PESSOA QUE QUEIRA APRENDER OU QUE JÁ ESTEJA NA ÁREA DA COMPUTAÇÃO. FICA FÁCIL PARA MIM…ABRAÇOS E AMIZADE ONLINE.

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